abril 22, 2005
Declaração de Amor

Fotografia de Norbert Guthier
Excita-me a tua presença, ó Árvore - ó Árvores todas!
Desejo-te (desejo-vos) como se fosses Carne, e eu Desejo.
Como se eu fosse o vento que preside às tuas bodas,
e te cicia em redor, e te fecunda num aliciante beijo.
Ponho os olhos em ti e entretenho-me a pensar que sou mãos,
todo mãos que te envolvem o tronco e te sacodem convulsivamente.
Requebras-te com volúpia, e os teus emaranhados cabelos louçãos
fustigam o ar como látegos, com toda a força que este amor me consente.
Ó árvore minha débil! Ó prazer dos meus olhos extáticos!
Ó filtro da luz do Sol! Ó refresco dos sedentos!
Destila nos meus lábios as gotas dos teus ésteres aromáticos,
unge a minha epiderme com teus macios unguentos.
Desnuda-me a tua intimidade, ó Árvore! Diz-me a que segredos recorres
para te desenrolares em flores e emfrutos num cíclioco desvairio.
Porque é que tudo morre à tua volta e tu não morres,
e aceitas sempre o Amor com renovado cio.
Inicia-me nos teus mistérios, ó feiticeira dos cabelos verdes!
Ensina-me a transformar um raio de Sol em suculenta carnadura,
e nesses perfumes subtis que a toda a hora perdes,
prolongando o teu ser no ar que te emoldura.
É através de ti, ó Árvore, que celebro os esponsais entre mim e a Natureza.
É através de ti que bebo a nuvem fresca e mordo a terra ardente.
É de ti que recebo as leis do Amor e da Beleza.
Amo-te, ó Árvore, apaixonadamente!
António Gedeão
Editado por Luísa, às 12:52 PM
abril 07, 2005
Sensualidade
Editado por Luísa, às 04:50 PM | Provas de Contacto... (1)
abril 01, 2005
Feitiço II

Encontro o meu amor a pescar
os seus pés nos baixios
Tomamos o pequeno-almoço juntos,
E bebemos cerveja.
Ofereço-lhe a magia das minhas coxas
Ele é apanhado pelo feitiço.
Anónimo, Egípcio, c. de 1500-1000 a.C.
Traduzido a partir da versão inglesa de Erza Pound e Noel Stock, Love poems of Ancient Egipt
Editado por Luísa, às 03:39 PM | Provas de Contacto... (3)
março 29, 2005
Feitiço
O triângulo das costas de um homem, dorso, e ancas,
movendo-se como ele se move, deslizando, voltando-se.
A delicada cavidade na base do pescoço de uma mulher, essa
depressão pulsante, o U suave do osso, a planura da pele
macia por baixo. E o feitiço continua, aumentando,
clarando-se. Um canto de roupa que cai, o resvalar dos
lençóis. Os actos são assim, tão cheios de potencial erótico,
eles adoptam as características dos objectos: para realizar
uma determinada coisa, introduzir a mão por entre os botões
da blusa de um amante. O acto é infinitamente variável,
infinitamente repetível, a forma de um objecto é sempre
nova e está sempre ali.
Sallie Tisdale, in Talk dirty to me
Editado por Luísa, às 09:42 PM
março 03, 2005
Vem...
Vem
vem caminhando suavemente
para mim
com os teus olhos postos nos meus.
Vem
no meio do silêncio profundo
e entra assim de manso na minha vida.
Tu já tinhas vindo há tanto tempo!
e no entanto era tão longe que estavas...
Mas o meu olhar e a minha alma chamavam-te
- Vem
oh, vem docemente.
Que sombra te envolvia
no silêncio das noite enormes
e te segredava docemente
- Vem
... atravessando o silêncio profundo
das ruas desertas, do cais deserto,
que eu te espero
no porto da viagem
batido pelo luar.
Que música selvagem
te levava a canção do meu desejo
e te pedia
- Vem...
E tu vieste
vieste por uma noite
escura e enorme
uma noite feita de todas as noites
da nossa vida.
(...)"
Raúl Gomes, in Seara Nova
Edição e arranjo fotográfico de Luisa
Editado por Luísa, às 08:13 PM